domingo, 23 de outubro de 2011

Pintar o Mundo!




Dentro da caixa de tintas do Diogo ia grande agitação.

O Preto afirmava ser a cor mais importante.

— Um lápis preto serve para desenhar tudo! Uma cidade, uma aldeia,

o Sol…

— Mas sem mim — disse o Amarelo — o Sol era uma simples bola.

Podiam até confundi-lo com uma bola de futebol!

— E sem mim — disse o Azul — o que era o mar?

— Mas às vezes — gritou o Verde — o mar também precisa de mim!

Quando está muito vento e as ondas são muito fortes, os pescadores

olham e sabem logo que não se devem aventurar. “Está esverdeado”,

ouço-os dizer. E isso é sinal de perigo. Se não fosse eu, quem os avisava?

— Pois a mim — murmurou o Vermelho, com ar cansado — sabia-me

bem a ajuda de um de vocês… Todo o dia e toda a noite a avisar

as pessoas que devem ter cuidado, que devem parar nas ruas, que

não devem ir muito depressa na estrada, mas as pessoas andam tão

distraídas…



Foi então que se ouviu o Branco dar um grande suspiro:

— Eu sou uma cor muito romântica… Sem mim, que vestiam as noivas

no dia do casamento?

— Um momento!

Todas as cores se voltaram. O Cor-de-Rosa tentava fazer ouvir a sua voz:

— Eu sei que acham que eu não me posso comparar com vocês,

que sou uma cor menos importante… Aqui há dias, por exemplo, ouvi

alguém dizer que eu era assim uma espécie de vermelho devagarinho…

Mas que seria das rosas se eu não existisse? E os sonhos das pessoas?

Já alguma vez ouviram alguém desejar “sonhos verdes” ou “sonhos

amarelos”? Já para não falar do final das histórias: conhecem alguma

que tenha… um final azul?

— Bom, às vezes também sou chamado a acabar uma história — disse

o Preto.

O Cor-de-Rosa não disse nada.

Infelizmente tinha de concordar que havia histórias com um final bem

negro. Mas a culpa era das pessoas, e ainda bem que existia o Preto,

para as pessoas se assustarem e tentarem resolver os problemas.

— Como vêem, sou eu a mais importante! — Voltou a dizer o Preto.

E logo todos em coro voltaram a gritar “eu!” “eu!”

Nesse momento o Diogo e a Isabel entraram no quarto:

— Dá-me a tua tinta vermelha! — pedia ela — Tens tantas!

— Mas preciso de todas! Cada uma é diferente e por isso todas fazem

falta!

Se quiseres, empresto-te a caixa, mas promete que a devolves com

elas todas lá dentro!

Então a Isabel levou a caixa para o seu quarto.

Estava a colocá-la na mochila, antes de se deitar, quando lhe pareceu

ouvir um barulho lá dentro, um som de vozes a discutirem entre si.

— Isto já é o sono… — exclamou.

Sorriu, e adormeceu.

Alice Vieira (história inédita)
In A Pérola, EMRC








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